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domingo, 21 de agosto de 2011
O BRANCO DA BANDEIRA
Dando uma espiadela de leve pela Wikipédia, para saber o significado dos símbolos de uma nação, pude então confirmar que eu realmente estou com os conhecimentos em dia. Então, eu sei, que tudo o que se considere ou se manifeste para o mundo como uma comunidade nacional é um símbolo. É importante conhecer e respeitar, pois os símbolos nacionais pretendem unir pessoas criando representações visuais, verbais ou icônicas do povo, dos valores, objetivos ou da história nacional.
Dentre muitos, a bandeira é um símbolo nacional oficial. Suas cores sempre representam alguma coisa, e seu formato e apresentação é procedimentado.
Há muito tempo, pelos idos de 1959.
Estava com meus 19 anos, e na época estava sendo treinado para a defesa nacional contra possíveis ataques de povos inimigos e alienígenas. Na oportunidade eu só imaginava, na minha santa inocência, que apenas os índios eram perigosos, e talvez fosse por isto que o exército convocasse os jovens alentados para o treinamento de luta contra eles. Outros possíveis inimigos eu não os conhecia, não tinha a menor idéia de quem eram eles. Hoje eu sei que muito mais que povos de outras nações; que os inofensivos índios; que os habitantes de outros planetas; existem os inimigos mais perigosos da pátria que são os grandes safados, sanguessugas, desonestos, vilões residentes aqui, representando a fragilidade do nosso país. São desleais, hipócritas, miseráveis que desrespeitam os símbolos e saqueiam a olhos vistos as riquezas da nação. Contra estes não existe treinamento. É uma luta inglória.
Recebia todos os tipos de adestramento – com armas, sem armas; na cidade ou no campo; sozinho ou em grupo. Mas, o inimigo sempre era invisível. O sargento nunca comentou conosco sobre os políticos perniciosos, sobre bêbados nos volantes; sobre a internet, sobre a televisão, traficantes e seqüestradores. O inócuo treinamento, que era teórico ou prático, servia para nada.
Um dia, em que o sol fazia feder assado os piolhos da cabeça, perfilados com as pernas semiabertas e as mãos grudadas acima da bunda, recebíamos a transmissão dos conhecimentos. O sargento, numa cantilena infernal, desfilava moral e ética para os ouvidos atentos da rapaziada fincada imóvel a sua frente.
O discurso daquele dia era sobre o valor e o respeito aos símbolos nacionais. Lamentável que nenhum bandido, político ou filho de uma puta estivesse ali para ouvir.
Falou sobre os símbolos oficiais e os não oficiais e perdeu-se em delonga sobre a bandeira nacional. Foi uma verdadeira prolação, principalmente, em estado imóvel em que se encontrávamos, fritados pelo astro rei.
O calor era infernal e as palavras vomitadas pelo instrutor batiam inúteis nos ouvidos derretidos pelo sol escaldante. Aquele prosar ao sol ardente fez um valoroso soldado despencar terra abaixo. Ninguém nem piscou petrificado pelo discurso intergaláctico daquele sargento. O pobre diabo permaneceu por longo período inerte esticado ao chão.
E lá na frente, impassível, o sargento perdia-se por veredas tantas na explicação do significado dos símbolos, adentrando nas cores da bandeira nacional.
Lembro-me que no alto de sua parolagem, discorria paulatinamente o significado de cada cor e sinais da bandeira.
- As estrela significam nossos estados, dizia ele, e continuava na sua oratória inútil para surdos ouvidos:
- O verde representa nossas florestas virgens e imensas.
Cinqüenta anos depois deste discurso, lamentavelmente não tão virgens e nem tão imensas.
Continuava o instrutor a frente daquele contingente que aos poucos ia se derretendo.
- O amarelo representa as nossas riquezas.
Eu imagino que naquele tempo os portugueses não tinham ainda levado todo o ouro da pátria amada e a dívida externa não estava tão alta, senão, com certeza, a cor seria vermelha.
- O azul do pavilhão reproduz este nosso lindo firmamento; é a imagem de nossas esperanças num porvir que há de vir sempre límpido e puro, de alma nobre, e pronto a servir, deste nosso povo abençoado.
Cá fico matutando que naquela época as condições sociais eram ótimas e o respeito e igualdade entre as pessoas tinham um significado diferente. Sei que a pureza de um povo está nos seus valores, e os valores estigmatizados de hoje estão emporcalhando a nossa gente.
O sargento foi desfiando o rosário de considerações e explicando o significado de cada coisa e de repente, ao ver todos aqueles postes imóveis, perfilados fincados a sua frente, resolve jogar uma pergunta para alguém. Não sei ao certo se o sargento não sabia a resposta ou foi uma estratégia para despertar da inércia o pelotão.
- Você, soldado 35, diga qual é o significado do branco na bandeira nacional.
Houve um silêncio sepulcral. Os passarinhos curiosos pararam de voar e até a brisa que vadia passava por ali, parou de soprar.
O recruta 35 de negro quase ficou alvo. Olhou atônito para o sargento, estufou o peito e seu olhar desviou-se para cima, e foi se perder na imensidão azul. Algumas nuvens, pequenas e sapecas passeavam despreocupadamente pelo céu rindo para o 35.
- 35, dê um passo à frente e responda! Ordenou o carrasco.
Ele obedeceu dando um passo a frente, mas sem tirar os olhos fixos da amplidão acima.
Eu acho que o 35, no despertar do sono, de sua indolência, deve ter racionalizado e concluído o seguinte, antes de responder:
- Se o azul representa o céu, se o verde nossas matas e o amarelo o ouro, então... Olhou para o sargento e com convicção respondeu:
- Representa a nuvens!
O mundo todo tremeu; os passarinhos desmaiados despencaram de seus galhos e a brisa escafedeu-se frente aos uivos esganiçados do sargento.
De castigo ficamos o resto do dia perfilados ao sol e o 35 passou três dias em cana por desrespeito ao símbolo nacional.
Por: Mario dos Santos Lima
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Um comentário:
Oi Mario Laje! Eu não sabia que você tinha blog! Só estou passando para deixar um abraço!
Eduardo Castro
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