terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O PÉ DE BOSTA

Meu amigo Cícero é um cara por deveras prevenido, cuidadoso, mas às vezes desatencioso. É um nordestino contador de muitas histórias. Fico, muitas vezes, ouvindo-as sem parar. Ele é despachado, não tem o que muita gente chama de cu assustado. Estando com o intestino cheio, e as merdas pedindo licença para passar, qualquer lugar é apropriado para que ele as elimine. Sempre trás com ele um rolo de papel higiênico. É um cagão por excelência. Um dia foi picado por uma surucucu furiosa. Ela se contorcendo toda morreu, mas meu amigo ficou apenas com dormências nas pernas e com pouca sensibilidade nos pés. Pela conformação de seu esqueleto arquitetado em Caicó, foi sentenciado por uma junta médica de Cambará que ele não pode, em hipótese alguma, comer seriguela com carne de jumento porque seu organismo entra em convulsão alucinante. Contou-me, certa feita, uma engraçada história que resolvi traduzir de meu jeito. Um dia meu amigo Cícero foi convidado para uma festa de casamento. Vestiu a caráter, chapéu de couro e chinelão, e foi à festa. Antes da cerimônia a comilança começou. Comeu gulosamente muita carne, e logo em seguida se atracou com bolos, doces de todos os formatos e sabores e por fim, lambendo os dedos, perguntou ao noivo: - Que carne apetitosa! De que bicho é? E estes doces e bolos saborosos, do que são eles feitos? O noivo olhou para o Cícero, colocou sem cerimônia a mão no ombro dele para se equilibrar, e olhando, com aquele olhar meia vida, de puta velha envenenada, e com a voz entorpecida pelo álcool solenemente, com a língua travada falou. - Cícero, minha noiva está grávida, e ela desejou ardentemente que tudo fosse feito com carne de jumento e com seriguela. E completou: - Para que a criança não nasça com cara de jumento e olhos de seriguela, tudo o que você vê e comeu nessa festa é jumento puro e seriguela da melhor qualidade. O Cícero vesgou, rodopiou e caiu aos peidos estrepitosamente ao chão. Pouco depois, abriu os olhos, passou a mão na bunda e percebendo que a coisa ainda não havia acontecido, saiu rapidamente da festa, e arriando as calças, soltou a descarga intestinal por detrás da primeira moita de flores que encontrou. Voltou satisfeito para festa, mas permaneceu perto da porta para qualquer emergência cagatória futura. Nesse momento o Padre oficiava a cerimônia. Um terrível fedor de carniça começou a tomar conta do ambiente carregada pela brisa que perpassava por onde o Cícero estava. As pessoas enojadas começaram a se afastar dele. - Será que o vento está trazendo o perfume de merda aqui para dentro? Perguntou cismado o Cícero para ele mesmo. E a catinga foi aumentando, foi aumentando assustadoramente. E a multidão, de narinas tapadas gritava: - Cagaram no mundo! Salve-se quem puder! - Voltem! Voltem! O noivo desesperado gritava. A festa ainda não acabou! Volte minha gente! Volte! E o povo asfixiado debatendo-se fugia, tal era o fedor da carniça que ali reinava. Mas de repente... A noiva, quase intoxicada pelo fedor, contorcendo-se quase morta, grita furiosa para o noivo apontando os pés do meu amigo Cícero. - Olha! Olha! Teu amigo é o culpado, o filho de uma puta pisou na bosta, e está todo embostelado. O Cícero ao olhar para os seus pés não contestou o filho de uma puta. Viu encabulado a cagada que fez. Lá fora, atrás da moita, ao ficar de cócoras a fim de esvaziar o intestino, depositou a merda toda no chinelão, e não sentindo a meleca, trouxe a carniça toda para dentro do recinto. Até hoje, lá pelas redondezas onde mora é conhecido como o pé de bosta. POR MARIO DOS SANTOS LIMA

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