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domingo, 16 de março de 2014
O DESTEMIDO MEDROSO
Os esqueletos, que viviam confortavelmente no cemitério ao lado, saíram de seus túmulos, e debandaram trêmulos, medrosos, cagando de medo.
Segundo alguns estudiosos o maldito medo é algo que sentimos, tanto faz no peito, na barriga ou nos fundilhos, deixando-nos desconfortáveis. Ele proporciona um estado de alerta pelo receio de que algo ruim possa nos acontecer. O pavor é o último estágio do medo; geralmente ele aparece, não para ajudar, mas para deixar a coisa pior do que está. Normalmente surge quando enfrentamos alguma coisa não desejada, e por isso acabamos borrando as cuecas ou calcinhas.
O medroso normalmente é um prosapioso; é um fanfarrão cara de pau, antes e depois da cena, porque da cena ele se esconde, encolhe o rabo, e fica ganindo feito cachorro assustado só olhando, tal qual espectador, o que lá está acontecendo..
Na lapa, pelos idos de 1920, um bandido muito temido pela população chamava-se Agnelo. Muitas vezes a lenda suplanta a realidade, mas que este bandido era perigoso, isto lá ele era, segundo relatos de pessoas que pesquisei.
Um casal tinha uma bodega na beira da estrada e vivia disso.
- Se este tal Agnelo aparecer por aqui, além de dar uns bons sopapos meto-lhe o pé na bunda pondo-o sem dó para fora! Assim falava sempre o valente bodegueiro para a mulher. Ela só olhava de canto de olho disfarçando um sorriso de descrença.
E um dia aconteceu.
- O Agnelo está vindo para cá! Desesperado, esbaforido, grita de fora um caboclo que se escafedeu mato adentro.
Quem estava na bodega, aos trancos e barrancos, derrubando mesas e cadeiras sumiu, tal qual cânfora, sem pagar a conta.
O bodegueiro rapidamente pegou a espingarda e disse para a mulher:
- Fique tranquila, mulher! Eu vou atrás daquela moita, e estarei com a arma apontada para cá, te protegendo sempre.
Se esgueirando por entre a cerca e árvores, lá foi o bodegueiro, quase de arrasto para trás da tal moita.
E o ploc, ploc das patas do cavalo foi aumentando, deixando bostas fumegantes pelo caminho e um rasto de poeira pardacenta.
Até os passarinhos pararam de cantar. Ouvia-se o respirar das folhas.
Os esqueletos, que viviam confortavelmente no cemitério ao lado, saíram de seus túmulos, e debandaram trêmulos, medrosos, cagando de medo.
E o Agnelo abonançado chegou, apeou despreocupadamente, amarrou o animal na cerca de balaústre e adentrou a bodega.
- Bom dia minha senhora! Ele estava de arma em punho.
A mulher do bodegueiro, que é gente como tantos outros, com o fiofó fechadíssimo naquele momento, não conseguiu responder.
- Você tem balas para este calibre?
- Tenho sim!
- Então, por favor, me veja duas caixas; também quero um café, pão com banha e torresmo.
Tomou o café, comeu o pão e guardou as caixas de balas na algibeira.
- Quanto foi a minha despesa?
- As caixas de balas ficaram em tanto, e o café é cortesia da casa.
- Em hipótese alguma minha senhora, disse o bandido para a mulher do bodegueiro, e continuou.
- Vocês trabalham para sustentar a família e não para sustentar vagabundo que aparece por aqui lá de vez em quanto. Sacou o dinheiro e colocou no balcão. A mulher deu o troco, e ele agradeceu, montou em seu cavalo desaparecendo da mesma maneira que veio, deixando apenas como rastro a poeira que aos poucos foi se dissipando.
O bodegueiro, depois de certificar que o Agnelo tinha ido embora, entra na bodega, e diz, de peito inchado, todo senhor de si, para a mulher:
- Vamos beber um vinho, dos bons, um português!
- Mas por quê? Pergunta a mulher.
- Para você se acalmar do susto que passou.
- Toma o vinho você, seu cagão! Disse a mulher furiosa, e completou, limpando dos farelos o balcão, e ajeitando o cabelo que teimava em cair na testa.
- Quem é que fugiu daqui? Fui eu?
E como sempre, muito fanfarrão ele disse:
- Se este bandido aparecer outra vez aqui eu... e a mulher, mais furiosa ainda, não permitiu que ele terminasse a frase dizendo:
- Vá limpar antes as merdas de sua cueca, seu cagão!
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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