MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 17 de agosto de 2014
PRESENTE DE CASAMNTO
O presente de casamento terá seu valor estimado não só pelo preço de aquisição, mas muito mais pelo que ele irá proporcionar ao ser usado depois.
O dito cujo muitas das vezes é complicado tanto para quem vai presentear, da mesma forma para aquele que vai receber. Conhecemos muito bem a expressão “presente de grego” que acaba sendo aquele presente que vai virar, com certeza, um entulho, um tranca canto.
Hoje, graças ao capitalismo cruel, está bem mais prático presentear, pois as listas de presente nas lojas nos facilitam bastante.
Um dia, como qualquer ser dependente, casei.
Do meu casamento, há quase cinquenta anos atrás, guardei as preciosidades inúteis que por longo tempo, até que consegui aos poucos me desfazer de todas. Desapeguei.
Logo após o casamento, eu e mulher, antes da viajem de núpcias, fomos fazer o levantamento do estoque recebido. Recebemos desde pinguins para a geladeira, a qual ainda não tínhamos, até jarra de água, em plástico amarelo escândalo, no formato de abacaxi. Além das inutilidades, recebemos presentes repetidos, tal como três pinicos em plástico, se bem que em cores diferentes.
Recebemos bons presentes também, embora alguns repetidos.
Viajamos felizes, porque as malas, e o dinheiro para a viagem ganhamos do nosso padrinho de casamento.
Ao final de nossa andança nupcial aportamos na casa de meus pais. Meu pai tinha uma empresa comercial de ferragens, secos e molhados. Uma empresa tipo tem de tudo.
Resolvemos comprar o que realmente iriamos precisar para o início de nossa vida de casados; Coisas que no inventário feito no dia do casamento não apareceu.
Selecionamos tudo o que tinha lá de utilidade doméstica. Pratos, panelas, talheres. Tudo para o café como também para as refeições.
Na hora de pagar a conta, a nota fiscal saiu sem valor. Foi um presente. Que pressente lindo e de fina utilidade!
Duas caixas enormes, com os presentes caprichosamente acondicionados, como num complicado quebra cabeça, foram necessárias.
O bagageiro do ônibus com as caixas ficou quase preenchido, fazendo com que o motorista mostrasse habilidades de lógica espacial para acomodar as mochilas, valises, sacos e bagagens.
A viagem, como qualquer outra transcorria sacolejante e poeirenta até chegar à divisa do estado.
O ônibus é parado pelo posto fiscal, e após alguns minutos um tarado guarda entra e pergunta:
- De quem são aquelas duas caixas enormes no bagageiro do ônibus?
Estava sonolento, e demorei um pouco para entender o que estava ocorrendo quando ouço o desgraçado guarda vociferar:
- Maldição! A quem pertencem aquelas caixas?
- É nossa, respondi de imediato, são presentes de casamento.
O cretino guarda grita
- Não pode ser de todo mundo, tem que ser de um individuo.
Eu calmamente argumentei.
- É que o padre quando nos casou disse que a partir dessa data seríamos apenas um, e por isso não é de todos ocupantes desse ônibus, mas nosso aqui, meu e de minha mulher.
- Seu engraçadinho, eu quero a nota fiscal e você vai ter que abrir as caixas!
Naquele momento um calafrio subiu do fundilho das calças indo morrer na base na nuca ao imaginar perdendo para a fiscalização todas aquelas panelas e louças. Criei coragem e respondi:
- Não temos nota fiscal, e não vamos abrir as caixas!
- O guarda, no desempenho da função dele, não queria ser contrariado. E eu estava contrariando-o. O filho de uma puta quase dançou de cueca naquele momento, e sacando de uma arma me pós para fora para tentar dar um corretivo.
Até aquele momento, os ocupantes do ônibus estavam passivamente sentados apenas, e tão somente atentos ao malfadado e garabulhento diálogo meu com o alterado guarda, mas quando o encapetado me joga para fora do ônibus a coisa ficou feia. O motorista pulou a janela indo se esconder atrás de um toco de árvore. Os guardas de pistolas em punho tentaram manter a ordem enquanto o povo nervoso gritava:
- Ninguém vai mexer nas caixas dos noivinhos!
Os anjos de plantão se escafederam deixando a vaga para os capetas.
Aquele desalinho ficou completamente descontrolado.
O povo queria pegar os guardas para uma cerimônia de castração.
Os policiais acuados pediram reforço.
E a fortificação imediatamente chegou.
Veio um batalhão do exército; e a aeronáutica mandou aviões especiais de combate para apaziguar aquele anárquico cenário. Só a televisão não compareceu para registrar o fato porque na região, naquela época, ainda isto era novidade.
Algemados, nós todos fomos para a cadeia esperando meu pai chegar com o documento especial para autorizar a circulação de mercadorias.
Meu pai finalmente chega, depois de algumas horas, com a nota fiscal, ele dá os esclarecimentos necessários. Uma vez resolvido todo aquele imbróglio, conseguimos tomar assento para continuar viajem.
E para felicidade de todos, as caixas de presente do casamento não foram desvirginadas, chegando intactas ao destino.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário