sábado, 7 de março de 2015

A JARDINEIRA E A MARIA-FUMAÇA

- Maldição, lá tá vindo o trem! Reviver as boas, e às vezes, as não tão boas coisas que passei é um exercício salutar que pratico constantemente. Esse processo normalmente tem um start em alguma coisa que instantaneamente vejo ou escuto. Por exemplo, o apito do trem exerce esse fascínio em mim, e assim eu viajo no tempo nos trilhos da imaginação. Hoje vou navegar por sonhos mil num episódio que aconteceu; Estive nele; Na época, por ser ainda de fraldas, estava no colo de minha mãe, desta forma dele tenho pouca recordação. Para recordar melhor tentei fazer regressão e outras coisas que me sugeriram, mas não consegui ter uma boa resolução do fato. Perguntei então ao meu pai, e ele me contou em riqueza de detalhes, por isso tomo a liberdade de descrever tal qual ele me relatou. Eu deveria ter quase dois anos e disputava ferrenhamente, com minha mana, o colo de minha mãe. Naquele tempo maravilhoso, a locomoção de nosso esqueleto, de uma cidade a outra, era feita por uma moderníssima jardineira. Cada jardineira, além do motorista tinha o cobrador que, entre muitas funções, era a de colocar e retirar malas, porcos, galinhas, sacos, caixão de defunto e outros apetrechos do bagageiro que ficava, do lado de fora, por cima do teto do veículo, e, para segurança dos passageiros, descer da jardineira para sinalizar que a passagem de nível estava livre. Chovia a cântaro. Eu, minha mana e meus pais estávamos realizando uma viagem radical por uma estrada lamacenta. Nas subidas os homens desciam para empurrar a jardineira e nas descidas, feito uma rampera no cio, ela rebolava de um lado ao outro na estrada. O motorista meteu o pé no freio, mas a filha de uma puta da jabiraca não parou, e toda descontrolada foi deslizando, deslizando, até parar quase nos trilhos, além do limite considerado seguro. Os passageiros se alvoroçaram feito pássaros em gaiola derrubada. As nuvens cuspiam água sem parar. O cobrador desceu com uma capa na cabeça para não ficar tão encharcado, e já, por cima dos trilhos, fazendo uma concha acústica com as mãos na orelha, ouviu o apito rouco da Maria fumaça que vinha engolindo trilhos e vomitando fagulhas por onde passava. O cobrador desesperado não sabia se sinalizava para o maquinista ou gritava para o motorista. A água da chuva veio se misturar a urina e as merdas que escorriam pelas suas pernas. Por fim soltou a voz. - Para trás! Para trás! Gritou aflito, completamente desvairado, o infeliz todo molhado para o motorista. Maldição, lá tá vindo o trem! O motorista ,quando se deu conta da merda que iria acontecer, emporcalhou o banco. Apavorado tentou, numa patinação terrível da jardineira, retirar a parte dianteira que avançava nos trilhos. Não estava conseguindo. E a Maria Fumaça vinha fumegante, cansada, nervosa e arrotando um apito rouco, gritava: - Saia da frente sua jardineira vagabunda, incompetente! O motorista fez o sinal da cruz, clamando aos céus por ajuda, e pediu para que todos se segurassem. O povo, em desmaio, gritava desesperado no bojo da jabiraca. Alguns tentando pular pela janela e outros, em lamúria, entregando a alma a Deus. Num milagroso e último esforço o motorista agoniado conseguiu que a jardineira recuasse alguns centímetros; Isto foi o suficiente para que não se transformasse numa merda maior. A Maria Fumaça chegou, e sem piedade, toda senhora de si, arrancou o para-choque da pobre jardineira, e a cada vagão que passava dava uma atritada dilacerando a lataria. E a cada carinho do trem na jardineira o povo gritava em desespero. Meu pai não contou o resto, mas imagino que os passageiros tiveram que sair rápido dali, a um lugar adequado, para trocar as cuecas e calcinhas, e lavar por dentro a jardineira toda emporcalhada para então seguir viagem. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

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