MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 5 de abril de 2015
O TEMIDO BANDIDO AGNELO
Encanta-me ouvir as histórias que meu pai conta. Fico olhando, auscultando e anotando tudo. Fico principalmente muito atento ao brilho do seu olhar e as expressões faciais no decorrer da narrativa. Ele dá vida ao que ele narra. É um autêntico e brilhante contador de histórias. Uma das histórias que tenho aqui nas minhas muitas anotações é de um tal Agnelo, bandido muito temido na região da Lapa pelo final do século retrasado.
Reli com cuidado as anotações, e vou descrever com velada parcimônia.
Ele contou, e eu anotei, que esse tal Agnelo era um homem cruel e temido por todos. Poucas vezes visto, mas muito falado, e costumas foco nas conversas de bêbados, e grupos ociosos nos bancos de praças, e esquinas de ruas de parca iluminação.
Diziam que quando era visto as mulheres se benziam, os homens se escondiam e os cachorros vadios, de rabos entre as pernas, rosnavam. Comentavam também que se Jesus estivesse entre nós, ao avistar o Agnelo correria medroso para os braços de sua mãe.
Não se tem foto e nem caricatura desse temível bandido, talvez por tão poucas vezes ele ter se mostrado ou porque ninguém encarraria a própria morte de frente.
Diz a lenda, mas meu pai afirma que é pura realidade, que Agnelo era um justiceiro. Não era arruaceiro nem briguento, mas não levava desaforo para casa. Se o cara esnobasse valentia para ele, imediatamente via suas vísceras dependuradas fora da barriga.
Agnelo tinha muitas mortes em sua fúnebre coleção. Normalmente suas vítimas não eram bons viventes. Eram cidadãos perdidos na vida – vagabundos de carteirinha.
Sempre, nas rodas das bodegas de beira de estrada, tinha um pseudovalente que gostava de contar vantagens a respeito do Agnelo, do tipo:
- Passei pelo Agnelo, e não abaixei a cabeça encarando-o frente a frente. E completava: E o covarde me respeitou!
Com certeza esse cara pode até ter passado por perto de onde estava o bandido, mas o certo mesmo é que abaixou a cabeça, saindo correndo com a cueca emporcalhada.
E foi num desses encontros, em papos inúteis, muito mais falando sobre o bandido que sobre mulheres que, entre uma pinga e outra, um farfante gabola grita no meio da bodega:
- Eu sou o Agnelo!
A noite já tinha se anunciado.
Eu sou Agnelo, Agnelo, Agnelo, e a frase ressoou mortuária pelo ambiente fazendo correr o mais valente dos homens se estivesse de plantão.
Ao ouvir isso os marmanjos que estavam por ali, mijando-se de medo se entocaram por debaixo das mesas.
O silêncio foi sepulcral.
O lusco fusco, no tremular das lamparinas, fez apenas uma figura alheia lá no fundo da bodega permanecer com a bunda colada na cadeira. Se era de medo ou aleijado não se sabe. O fanfarrão, ao lado do balcão, ignorando a figura desconhecida lá no fundo da bodega e notando o medo dos inúteis bêbados por debaixo das mesas, bate com força na mesa e grita.
- Seus filhos de uma puta, medrosos do caralho, podem beber e comer de graça por que eu sou Agnelo. E completou: - Eu mando e não peço.
Um e outro aos poucos foram se chegando ao balcão.
O dono da bodega, se urinando todo, viu suas parcas economias ser devastada por ordem daquele canalha irresponsável.
Todos se fartaram e se embebedaram além do limite.
Quando o valentão deu sinais que iria escorregar o esqueleto para fora indo embora, a misteriosa figura levanta-se lentamente, e a passos firmes, com uma reluzente arma na mão se dirige ao fanfarrão.
Com a mão forte no colarinho e a arma apontada na testa do metido gabola diz:
- Seu farsante de uma figa! Agnelo pode ser bandido, coisa ruim, o capeta vestido de gente, mas respeita o trabalhador e as pessoas honestas!
Não pegou o gabola pelo cu das calças porque já estava toda urinada e emporcalhada, mas pela goela gritando:
- Vá lá e pague a sua dívida, seu porqueira!
A dívida foi paga.
Agnelo, sem pressa, pega o cavalo e desaparece na escuridão da estrada.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 29 de março de 2015
URINOU NO QUARTO DA NOIVA
A mulher, em todos os sentidos, sempre foi mais recatada, mais discreta, mais delicada que o homem, principalmente quando tem vontade de fazer xixi; Ela vai fazer xixi com elegância, como quem vai passear; Vai disfarçadamente a lugar reservado, e sempre pede a companhia de uma amiga. O homem, pelo contrário, já é mais relaxadão, é um brutamonte, é mais porcalhão; Se estiver com a bexiga para estourar desocupa a urina em qualquer lugar; Atrás de uma árvore, atrás de um carro, atrás de uma moita sempre serão lugares encantadores, apaixonantes para espumar a urina no chão.
Vou contar o pecado, mas preservando a figura do pecador.
Eram dois amigos inseparáveis. Quase irmãos. Um deles gostava de usufruir em demasia do líquido que os passarinhos se recusam a tomar.
Um dia, para o casamento da filha do que sempre se mostrava sóbrio, o amigo bebum foi convidado, como não poderia ser de outra maneira.
Ele foi e bebeu pra cacete.
A festa se desenrolava solta e alegre na casa da noiva. Muitos convidados se cotovelavam pela sala, pelos quartos, cozinha e quintal.
A noite já pintava tudo de negro. A lua cheia, lá no alto, permitia com seu brilhar que as pessoas não se trombassem no quintal.
A casa era simples e de madeira.
No quarto, na cama de casal, se amontoavam dezenas de presentes.
O líquido estonteante, espumando nos copos, rolava solto. As mulheres faziam fila na única privada que existia na residência – era uma casinha em madeira lá no fundo do quintal. Os homens aliviavam-se por de trás da casa.
O amigo do pai da noiva sentiu-se na obrigação, no elevado dever de dar conforto a seu esqueleto, e para aliviar sua bexiga começou a dura procura pelo lugar adequado. A mangueira que ele tem no meio das pernas, usada para esvaziar a urina, estava exageradamente endurecida causando certo constrangimento no mulherio presente, que fugiam em gritinhos de temor ou de saudade.
Cambaleando, sem se preocupar com o vexame, procura o bêbado incessantemente um lugar adequado para se aliviar.
Por fim ele abre uma porta. O lusco fusco do ambiente que se descortinou, misturado com o álcool que ele ingeriu, deu uma visão de uma linda e convidativa privada para o quarto repleto de presentes.
Não teve dúvidas e começou com dificuldade abrir a braguilha.
A noiva se retocava a um canto na penumbra, e quando viu aquele jumento acomodando, para o lado de fora da braguilha, seu instrumento urinário, pensou que seria estuprada antes do noivo.
Quando ela percebeu que não era ela o objeto do desejo do bêbado, e sim o conforto que o atrás da porta trazia para ele, começou a gritar.
O bêbado ouvindo os gritos pensou que fosse seu cacete dando à bronca, e com voz entrecortada diz:
- Calma meu companheiro, já estou te aliviando!
A urina corria, caudaloso rio, por debaixo da porta invadindo o corredor e tomando conta dos aposentos. A noiva aos gritos, fugindo do quarto escorrega naquela imundície e cai de prancha. O pai dela vem em seu socorro enquanto o povo pisando nas pontas dos pés tapava as narinas para evitar o forte cheiro de ureia.
Quando o pai da noiva vê o bêbado saindo de trás da porta, pega-o pelo colarinho e espumando de raiva grita.
- Seu porco imundo, veja o que você fez!
O bêbado, quase caindo, babando, coloca a mão no ombro do amigo para não cair, e com voz conturbada diz:
- Bonita festa meu amigo, quero beber para comemorar!
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sexta-feira, 27 de março de 2015
O VERDUGO E A GATA
O amor aos animais é um bichinho que nos contamina por dentro de maneira espantosa, incontida mesmo, e isso é hereditário. Minha mãe amava os animais como se fossem seus filhos, seus dependentes. Minha mana foi contaminada por esse vírus, e desta forma não pode ver qualquer peludo e empenado em sofrimento que imediatamente vai a seu socorro.
Certa feita uma gata...
Rondava a casa dela um felino em busca de migalhas que caia da gaiola ou sobras da ração da cachorra. Minha irmã se encantou por ele; Tentou pegá-lo, mas foi inútil; Não conseguindo captura-lo arquitetou um plano infalível. Foi aos poucos, dias após dias, pacientemente sevando o animal colocando alimento aqui e ali para que ele viesse busca-lo. A primeira ração foi colocada bem distante, e a cada dia trazia mais para perto, até que a última colocou dentro de uma armadilha. Um enorme barulho, miados angustiados, e assim lá estava o gato capturada.
Pense no capeta recebendo água benta!
Pelo temperamento hostil e barraqueiro minha mana descobriu que era uma gata.
A gata xingou, disse impropérios, ameaçou e cuspiu raiva, mostrando suas afiadas unhas para quem tentasse se aproximar do artifício no qual estava presa.
Minha mana, não tendo coragem de abrir a armadilha, chamou o corpo de bombeiro, que com luvas especiais em raspa de couro e com revolver em punho tirou a gata de dentro da armadilha dizendo para minha mana.
- Puta merda esta gata tem um gênio feroz, é bom que você leve ao veterinário para castrar e dar um sossega leão nela!
Com a licença do IBAMA o próprio batalhão se encarregou de fazer isso; Escoltado pela polícia militar, levaram a fera até ao veterinário.
A gata tentou escapar pulando do caminhão, mas foi contida em caganeira provocado pelo gás de efeito moral lançado pela polícia, e pelo forte jato d’água jogado pelo bombeiro.
O veterinário abriu a barriga do capturado animal arrancando os miúdos dela. Foi uma castração de sucesso.
A gata passou quatro dias sonolenta pelo efeito da anestesia. Aos poucos, voltando ao estado normal, aceitou a convivência com minha mana e recebeu na pia batismal o nome de Teca.
A Teca rosnava livremente pela casa; Esfregava sensualmente pelas pernas de quem estivesse por perto; Fazia montinhos de merda pelos cantos da casa para marcar o território; Arranhava desfiando cortinas e sofás na maior liberdade e aquiescência da dona da casa.
Mas um dia...
Desesperada minha mana procurou a Teca pela casa encontrando apenas as cortinas e sofás arranhados e os montinhos de sujeira. Sai pelas ruas, e numa caminhada continuada, sem se alimentar e dormir, em busca, por dias seguidos, da gata que tanto amava.
- Teca! Teca! Gritava loucamente pela cidade.
Colocou aviso na televisão, no jornal. Para continuar a busca pediu verba extra para a Petrobrás, pediu ajuda para a Dilma. As verbas que chegavam eram insignificantes para manter o projeto da busca; A prefeitura não participou porque queria criar o GATÃO para desviar verba, mas a minha irmã não aceitou.
O tempo passa e o desespero aumenta. Muitas lágrimas.
Um dia minha mana recebe um estranho pacote.
Dentro do pacote foram encontrados, uma unha felina, a foto do Prefeito encapuçado com uma navalha no pescoço da Teca e um bilhete em cd onde se ouvia.
- A sua gata vai ser decapitada e eu comerei um gostoso churrasquinho com a carne dela! Ah! Ah! Ah!
O prefeito tinha uma rixa política religiosa com minha irmã. Andava aprontando sempre botando fogo na casa de outra irmã, jogando pedra na cabeça de meu pai e outras tantas tramas cruéis.
O desespero tomou conta dela. Ela postou no facebook a terrível foto da degola. Teve, em poucos minutos mais de um milhão de acesso. Até o Papa Francisco curtiu a página lamentando.
Quando já tudo parecia consumado eis que um dia minha mana escuta uns toque toque na porta e vai correndo abri-la e grita de alegria:
- Teca, você voltou?
E a gata, toda machucada, manquitola, ensanguentada num olhar suplicante, com voz sumida, erguendo em súplicas as patas dianteiras, diz:
- Sim sou eu. Escapei milagrosamente ao arranhar o pinto murcho do filho de uma puta do prefeito, e estou de volta.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 7 de março de 2015
A JARDINEIRA E A MARIA-FUMAÇA
- Maldição, lá tá vindo o trem!
Reviver as boas, e às vezes, as não tão boas coisas que passei é um exercício salutar que pratico constantemente. Esse processo normalmente tem um start em alguma coisa que instantaneamente vejo ou escuto. Por exemplo, o apito do trem exerce esse fascínio em mim, e assim eu viajo no tempo nos trilhos da imaginação. Hoje vou navegar por sonhos mil num episódio que aconteceu; Estive nele; Na época, por ser ainda de fraldas, estava no colo de minha mãe, desta forma dele tenho pouca recordação. Para recordar melhor tentei fazer regressão e outras coisas que me sugeriram, mas não consegui ter uma boa resolução do fato. Perguntei então ao meu pai, e ele me contou em riqueza de detalhes, por isso tomo a liberdade de descrever tal qual ele me relatou.
Eu deveria ter quase dois anos e disputava ferrenhamente, com minha mana, o colo de minha mãe.
Naquele tempo maravilhoso, a locomoção de nosso esqueleto, de uma cidade a outra, era feita por uma moderníssima jardineira.
Cada jardineira, além do motorista tinha o cobrador que, entre muitas funções, era a de colocar e retirar malas, porcos, galinhas, sacos, caixão de defunto e outros apetrechos do bagageiro que ficava, do lado de fora, por cima do teto do veículo, e, para segurança dos passageiros, descer da jardineira para sinalizar que a passagem de nível estava livre.
Chovia a cântaro.
Eu, minha mana e meus pais estávamos realizando uma viagem radical por uma estrada lamacenta. Nas subidas os homens desciam para empurrar a jardineira e nas descidas, feito uma rampera no cio, ela rebolava de um lado ao outro na estrada.
O motorista meteu o pé no freio, mas a filha de uma puta da jabiraca não parou, e toda descontrolada foi deslizando, deslizando, até parar quase nos trilhos, além do limite considerado seguro.
Os passageiros se alvoroçaram feito pássaros em gaiola derrubada.
As nuvens cuspiam água sem parar.
O cobrador desceu com uma capa na cabeça para não ficar tão encharcado, e já, por cima dos trilhos, fazendo uma concha acústica com as mãos na orelha, ouviu o apito rouco da Maria fumaça que vinha engolindo trilhos e vomitando fagulhas por onde passava.
O cobrador desesperado não sabia se sinalizava para o maquinista ou gritava para o motorista.
A água da chuva veio se misturar a urina e as merdas que escorriam pelas suas pernas.
Por fim soltou a voz.
- Para trás! Para trás! Gritou aflito, completamente desvairado, o infeliz todo molhado para o motorista. Maldição, lá tá vindo o trem!
O motorista ,quando se deu conta da merda que iria acontecer, emporcalhou o banco.
Apavorado tentou, numa patinação terrível da jardineira, retirar a parte dianteira que avançava nos trilhos. Não estava conseguindo.
E a Maria Fumaça vinha fumegante, cansada, nervosa e arrotando um apito rouco, gritava:
- Saia da frente sua jardineira vagabunda, incompetente!
O motorista fez o sinal da cruz, clamando aos céus por ajuda, e pediu para que todos se segurassem.
O povo, em desmaio, gritava desesperado no bojo da jabiraca. Alguns tentando pular pela janela e outros, em lamúria, entregando a alma a Deus.
Num milagroso e último esforço o motorista agoniado conseguiu que a jardineira recuasse alguns centímetros; Isto foi o suficiente para que não se transformasse numa merda maior.
A Maria Fumaça chegou, e sem piedade, toda senhora de si, arrancou o para-choque da pobre jardineira, e a cada vagão que passava dava uma atritada dilacerando a lataria.
E a cada carinho do trem na jardineira o povo gritava em desespero.
Meu pai não contou o resto, mas imagino que os passageiros tiveram que sair rápido dali, a um lugar adequado, para trocar as cuecas e calcinhas, e lavar por dentro a jardineira toda emporcalhada para então seguir viagem.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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