sábado, 7 de maio de 2011

URINOL FURADO

Quando chegava de férias do seminário pouco ficava eu em casa; tinha um prazer enorme em ser convidado pelo Padre Vigário para ajudá-lo nas cerimônias da santa missa. Certa feita me convidou para ir até ao Pontal do Paraná.

A estrada estreita, em terra batida era muito linda e agradável ladeada de mata nativa que em certos trechos até parecia um túnel. De quando em quando a gente tinha o prazer de encontrar com algum bicho silvestre que assustados cruzavam a estrada, ouvir o canto estridente do tucano e o rebuliço das araras em bando. Passava ao largo de Teodoro Sampaio embrenhando-se cada vez mais na mata virgem.

Depois de umas 3 horas de viagem de Jipe - jipe modelo 54 - chegamos a uma grande clareira onde se via ao centro a Igrejinha ladeada por algumas casas em madeira. O sol já se espreguiçando, perdendo a cor teimava em querer desaparecer. Era uma pintura o local. Eu estava boquiaberto admirando tudo aquilo quando o Pe. Rosalvo vira-se para mim e todo feliz numa voz de vitória diz: - “Chegamos”.
Alguns foguetes vieram quebrar a quietude daquele lugar. Os pássaros em revoada abandonaram assustados os galhos das árvores, não sei se de medo do berro do padre ou dos foguetes. Como se tivesse mexido num formigueiro, surgindo não sei de onde uma multidão cantando, gritando, dando vivas nos recebeu em festa. Ali mesmo, cansado da viajem, mas muito feliz pela recepção o padre convidou aquele povo para a reza do terço que aconteceria logo à noite. O povo, na sua imensa alegria nos carregou com malas e tudo igreja adentro. A festa toda tinha um sentido muito nobre e muito grande para aquela gente humilde, pois o padre aparecia de quando em vez por ali.

Depois da reza do terço o padre ficou acomodado na parte dos fundos da igreja num quartinho singelo, mas posto em ordem e eu fiquei na casa da família logo ao lado da Igreja.

O quarto era grande, cama de casal e urinol branco, louçado – coisa de rei – reluzente ele dava sinal de vida indicando de que eu não precisaria sair lá fora para fazer minhas necessidades – à noite sempre me apavorou com seus mistérios e uivos desconhecidos. Conferi tudo. A cama de palha bem mexida. Uma coberta de pena de ganso – as noites nestes lugares encravados na floresta sempre são mais frias. Um criado mudo e uma lamparina a querosene em cima iluminava parcamente o local com sua luz crepitante. Olhei para o teto e fiquei deveras preocupado. Não tinha forro e meu quarto era contíguo ao quarto do casal. Tinha que ser comedido nos meus movimentos para não atrapalhar com o barulho o sono inocente de meus anfitriões. Andava nas pontas dos pés. Cuidadosamente me pus por debaixo das cobertas. Imperceptíveis ruídos se espalharam pelo ambiente acreditando eu que não ultrapassou a parede que dividia meu quarto com o deles. Lá fora ainda escutei o piado sorumbático de uma coruja e um calafrio perpassou toda minha espinha. Apaguei a lamparina, fiz minhas orações da noite e adormeci apreensivo, mas feliz.


De madrugada acordei com o cacete aprumado. Como não tinha tido nenhum sonho erótico verifiquei que era apenas minha bexiga avisando de que precisava ser esvaziada. Pus-me mansamente fora da cama, me inclinei e peguei o penico. Preocupou-me na hora o ruído característico que o jato de urina faria no fundo do urinol que, por certo acordaria assustada a população toda – os humanos e os bichos.

Por alguns minutos tracei um plano para atingir o meu objetivo inicial de não fazer qualquer ruído que atrapalhasse o santo e justo sono daquela população e em especial a dos meus vizinhos de quarto. A situação estava cada vez mais crítica e exigia uma ação rápida, pois já não mais agüentava toda a pressão urinária. O cacete estava bonito, mas a situação estava feia.

Acomodei o branquinho por cima das cobertas com a finalidade de abafar o ruído e finalmente puxei um ar para os pulmões, fechei os olhos e satisfeito comecei a descarregar o líquido. Como tinha tomado muita gasosa ao jantar fiquei ali aliviando a coisa por quase 10 minutos.

Terminei a operação completa de chacoalhar e guardar e ao pegar o urinol para posicioná-lo novamente debaixo da cama quase caí de costa – não foi por estar pesado ou coisa parecida, mas simplesmente porque dentro do recipiente não se encontrava qualquer tipo de líquido. Apalpei-me e vi que estava acordado e que isto não era um sonho; apertei minha bexiga e ela se encontrava prazerosamente vazia. Comecei a examinar o penico e com espanto verifiquei que havia um orifício enorme na parte de baixo. O fato apavorou-me.

Começou então a santa inquisição. Se estou acordado, se já não estou mais com vontade de urinar, se eu urinei aonde foi parar o dito líquido? Na hora quis que tivesse acontecido um milagre da evaporação e fui com a mão diretamente em cima das cobertas. Lá estava a urina toda acomodada e muito feliz esparramada no chão por debaixo da cama e por quase todo o quarto. Fiquei tão espavorido com a situação que não mais dormi. Perdi a tesão e fiquei sem condições de deitar naquela cama toda mijada. Fiquei sentado aos pés da cama o resto da noite.

Seis horas da manhã bateu num relógio de parede e antes que alguém levantasse fugi assustado, apavorado revoltado daquela casa.

Por falta de sorte mesmo o padre foi convidado para almoçar justamente naquela casa. Convidaram-me através do padre, mas não apareci. Simulei uma doença brava qualquer e fiquei escondido na parte traseira do jipe durante todo o dia até a hora de irmos embora.

Até hoje existe na região a lenda do menino que se desintegrou transformando-se em xixi. Foi a única maneira encontrada por aquela gente simples para explicar como alguém dormindo pudesse urinar por cima das cobertas.
por: Mario dos Santos Lima

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