terça-feira, 17 de maio de 2011

UM LADRÃO MODERNO

A vida é feita de surpresas; De muitas surpresas. Muitas vezes alguns acontecimentos nos trazem conseqüências, nos envolvem em situações momentâneas entre desastrosas ou hilariantes. Sempre na hora do fato ela nos é funesta ou desastrosa, mas depois, ao lembrá-la ou comenta-la ela se torna engraçada, muito cômica mesmo.
A Irene comprou o seu carro zero bala e deu nome de princesa. Cercou-o de mil cuidados. Nada pode acontecer a ele. Ele é intocável. Ninguém está autorizado a usá-lo. Para olhar é com olhos e não com os dedos ou mãos. Muitas vezes ela acaba indo de ônibus ao trabalho só para evitar aquelas doidas circunstâncias que possam oferecer qualquer perigo à princesa dela.
Se uma mosca desavisada nos seus vôos mirabolantes senta despreocupadamente na lataria do carro a Irene sempre atenta e ali por perto de guarda espanta-a violentamente ameaçando-a de morte. Imediatamente pega a lupa que sempre está na sua bolsa para verificar se as patas nojentas do inseto causaram qualquer dano à pintura de sua princesa.
O carro já algum tempo guardado estava até com teias de aranha gerando alguns protestos dos moradores principalmente daqueles que tem a garagem contígua ao carro da Irene. Para evitar maiores problemas no condomínio ela resolveu tirar a princesa para tomar uma fresquinha temerosamente solicitando que eu fizesse isto, mas não sem antes fazer mil e umas recomendações. A garagem do prédio é um verdadeiro funil e de estreita passagem e em função disto e das severas recomendações eu levei mais de quarenta minutos para sacá-lo da garagem para a rua. Formou-se atrás, na garagem um congestionamento enorme de carros e um tremendo buzinaço. Quase fui linchado por isto, mas consegui tirar a princesa da Irene sã e salva sem qualquer arranhão.
O dia estava calmo e convidativo para umas voltas.
O carro olhou para mim com aquele olhar de súplica, tal qual uma vadia se desnastrando toda sugerindo:
- Vamos dar uma voltinha na quadra garotão?
Aquele convite de encômio autêntico aguçou minha vontade de dirigir aquele caro cheirando a virgem. Olhei de um lado e olhei de outro e adentrei àquela preciosidade. Eu senti que com esta penetração a princesa deu um suspiro de prazer.
- A Irene nem vai perceber, pensei eu cá com meus botões.
Liguei a ignição e o rádio.
- Ladrão perigoso rouba bicicleta do supermercado e assalta banco colocando todo o dinheiro na cesta de plástico fixado no bagageiro. Esta foi a notícia que eu estava escutando.
Tudo estava indo as mil maravilhas até eu pegar a rua de sentido único. O movimento estava intenso, mas...
Um pouco mais acima vislumbrei um tresloucado de arma em punho pedalando alucinadamente uma bicicleta contra a mão. Logo atrás diversos carros da polícia de sirene ligada e quatro helicópteros metralhando o indivíduo gritando:
- Pega ladrão, e o cara numa desembalada corrida se agigantava cada vez mais contra o carro da Irene.
Todos os motoristas a minha frente abrindo espaço subiam nas calçadas abandonando aos berros seus carros e eu rezava feito um filho de uma puta para todos os santos e deuses que porventura existissem para que tudo aquilo fosse apenas um sonho, fosse uma grande mentira.
E eu acho que Deus e os santos não existem.
As balas assoviavam felizes passando por mim, acertando a princesa e estilhaçando o pára-brisa. Eu já não mais guiava o carro, ele se guiava aos gritos e aos pulos de felicidade acelerava ainda mais de encontro ao ciclista maluco.
A bicicleta veio de encontro e num estrondo gigantesco abraçou como se fosse um sinapismo a princesa da Irene numa foda monumental. O cara vazou pelo pára-brisa e sem perder a postura, de ponta cabeça no banco, por entre as pernas apontou a arma para mim e pediu que eu tocasse rápido para fugir da polícia.
Iniciou a grande fuga radical.
O carro sobe nas calçadas, dá cavalo de pau, faz a curva em duas rodas, passa por canteiros, passa por galerias, quebra muros e postes, derruba árvores deixando a polícia enlouquecida com diversos carros trombados e capotados. E lá vou eu com a arma apontada no pescoço dirigindo em cenas cinematográficas americanas fugindo da polícia ao som funéreo das sirenes, balas sibilando e do povo gritando.
Depois de quase cinco horas de fuga o exército americano, convocado consegue finalmente abater o carro com uma bala de canhão que pesava mais de duzentos quilos. A bala atingiu em cheio a traseira do carro arregaçando completamente fazendo as rodas abrirem pra fora feito uma vadia de pernas abertas. Alguns gemidos de prazer nem sei e a princesa finalmente parou.
Mil armas apontadas para mim.
O ladrão fugiu em desembalada corrida levando o dinheiro e eu me fodi.
Saí de mãos erguidas e me joguei no chão. Fui algemado e preso por ter dado acolhida ao ladrão; por formação de quadrilha; por roubo qualificado; por ter perturbado o sossego público; por dirigir perigosamente, por estacionar em local inadequado; por atropelamento.
A Irene pagou a fiança de soltura e eu saí livre, mas proibido de dirigir qualquer carro que ela futuramente vá comprar.
A princesa dela está em exposição no centro da cidade toda quebrada, riscada, perfurada com a bicicleta fundida na frente e a bala de canhão grudada atrás. Uma verdadeira obra de arte.
por: Mario dos Santos LIma

Um comentário:

Unknown disse...

PARABENS!!!NOTA 10!!!