segunda-feira, 24 de março de 2014

DESASTRADA DECISÃO

Segundo o dicionário, desastrada é aquela pessoa incapaz de fazer qualquer coisa sem que isso dê errado, dê em merda, embora eu bata de frente discordando dessa definição. Eu acho que desastrada é a pessoa que tenta fazer alguma coisa, e a maldita estatística é contra ela – quase tudo dá em trapalhada. Segundo a Bíblia nós viemos do pó assumindo tudo que nele existe. Por essa razão as vibrações da natureza sempre vão conspirar a nosso favor. Mas a santa natureza é ignorante, e não sabe o que é bom ou ruim para o nosso pobre corpo, e assim, tudo o que desejamos, acreditamos ou assumimos consciente ou inconscientemente, a natureza se encarregará de fazer acontecer. A Laura deve, quando criança ainda, ter quebrado acidentalmente alguma coisa, e de imediato foi batizada solenemente de: - "Você é uma desastrada”. E inconscientemente ela se vestiu disso. E assim carrega esta roupagem por todos os lugares por onde passa. Ela já foi ao pai de santo, ao psicólogo, as montanhas, nas cavernas, para ver se descarregava do corpo esta sina, mas nada foi potente o suficiente para reverter a situação. A Laura foi sempre muita ativa, hábil e estrategicamente sapeca em conseguir alguma coisa, mas estatisticamente desastrada em se tratando de louças. Louça é como se fosse uma maldição para ela. Em casa ela era proibida de lavar e guardar os pratos, sobrando então a tarefa para mim. Para evitar a quebra financeira da família, o pai, depois de grandes desastres, comprou copos e pratos em alumínio. Eram tantas as louças compradas que certa feita a Laura recebeu uma menção honrosa de um fabricante de pratos, xícaras e copos por ser ela uma destemida e contumaz usuária de seus produtos. – Os filhos de uma puta não sabiam que ela era sim uma contumaz exterminadora dos produtos deles. Ainda menina, foi chamada para fazer teste em uma cerâmica de porcelana, mas desastrada como sempre, logo no teste inicial quebrou todo o mostruário, foi reprovada, e desolada, acabrunhada, macambuzia acabou indo para o convento. Mas antes de ir ao convento muita coisa aconteceu. Um dia em casa foi escalada para arrumar a mesa para o almoço. O relógio desesperado gritava para todo mundo que o pai já estava chegando. A mãe nos finalmente no fritar dos bifes, e a Laura apavorada na arrumação da mesa, e eu só olhando para um dia escrever esta crônica. Os pratos! Ah sim os pratos para serem colocados na mesa! Eles estavam no armário, na prateleira de cima. Nesse armário tinha tudo de mais precioso que a mãe possuía. Porcelanas finíssimas, lembranças de solteira e coisas que ganhou no dia do casamento. - Mário o que faço? Os pratos estão na prateleira de cima! - Suba na cadeira e os pegue, respondi de imediato. Ela pensou, e num relance decidiu por escalar o armário. Desastrosa decisão! Os pratos gritavam não! Por favor, não! Mas a Laura teimosa começou a escalada radical. O armário suplicava: - Não Laura, por favor, Não me escale! De nada adiantou tamanhas súplicas. O armário gemeu, tentou se grudar na parede, mas num grito desesperado começou a inclinar. Com o gemer do armário e os gritos da Laura pedindo socorro, a mãe que estava atenta ao fogão, desvirou-se, e de olhos arregalados apenas deu rapidamente um pulinho do lado para que os cacos não a ferissem. - O que é isso minha filha? Em desespero, minha mãe, com a mão na boca, cai desmaiada. Em meio aos cacos, por debaixo do armário, meio zonza, assustada, apareceu a Laura, toda ensanguentada que disse chorosa: - Eu deveria ter pegado a cadeira! Não é mesmo? Depois do sermão, e chineladas na bunda naquele dia nós comemos diretamente das panelas. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 16 de março de 2014

O DESTEMIDO MEDROSO

Os esqueletos, que viviam confortavelmente no cemitério ao lado, saíram de seus túmulos, e debandaram trêmulos, medrosos, cagando de medo. Segundo alguns estudiosos o maldito medo é algo que sentimos, tanto faz no peito, na barriga ou nos fundilhos, deixando-nos desconfortáveis. Ele proporciona um estado de alerta pelo receio de que algo ruim possa nos acontecer. O pavor é o último estágio do medo; geralmente ele aparece, não para ajudar, mas para deixar a coisa pior do que está. Normalmente surge quando enfrentamos alguma coisa não desejada, e por isso acabamos borrando as cuecas ou calcinhas. O medroso normalmente é um prosapioso; é um fanfarrão cara de pau, antes e depois da cena, porque da cena ele se esconde, encolhe o rabo, e fica ganindo feito cachorro assustado só olhando, tal qual espectador, o que lá está acontecendo.. Na lapa, pelos idos de 1920, um bandido muito temido pela população chamava-se Agnelo. Muitas vezes a lenda suplanta a realidade, mas que este bandido era perigoso, isto lá ele era, segundo relatos de pessoas que pesquisei. Um casal tinha uma bodega na beira da estrada e vivia disso. - Se este tal Agnelo aparecer por aqui, além de dar uns bons sopapos meto-lhe o pé na bunda pondo-o sem dó para fora! Assim falava sempre o valente bodegueiro para a mulher. Ela só olhava de canto de olho disfarçando um sorriso de descrença. E um dia aconteceu. - O Agnelo está vindo para cá! Desesperado, esbaforido, grita de fora um caboclo que se escafedeu mato adentro. Quem estava na bodega, aos trancos e barrancos, derrubando mesas e cadeiras sumiu, tal qual cânfora, sem pagar a conta. O bodegueiro rapidamente pegou a espingarda e disse para a mulher: - Fique tranquila, mulher! Eu vou atrás daquela moita, e estarei com a arma apontada para cá, te protegendo sempre. Se esgueirando por entre a cerca e árvores, lá foi o bodegueiro, quase de arrasto para trás da tal moita. E o ploc, ploc das patas do cavalo foi aumentando, deixando bostas fumegantes pelo caminho e um rasto de poeira pardacenta. Até os passarinhos pararam de cantar. Ouvia-se o respirar das folhas. Os esqueletos, que viviam confortavelmente no cemitério ao lado, saíram de seus túmulos, e debandaram trêmulos, medrosos, cagando de medo. E o Agnelo abonançado chegou, apeou despreocupadamente, amarrou o animal na cerca de balaústre e adentrou a bodega. - Bom dia minha senhora! Ele estava de arma em punho. A mulher do bodegueiro, que é gente como tantos outros, com o fiofó fechadíssimo naquele momento, não conseguiu responder. - Você tem balas para este calibre? - Tenho sim! - Então, por favor, me veja duas caixas; também quero um café, pão com banha e torresmo. Tomou o café, comeu o pão e guardou as caixas de balas na algibeira. - Quanto foi a minha despesa? - As caixas de balas ficaram em tanto, e o café é cortesia da casa. - Em hipótese alguma minha senhora, disse o bandido para a mulher do bodegueiro, e continuou. - Vocês trabalham para sustentar a família e não para sustentar vagabundo que aparece por aqui lá de vez em quanto. Sacou o dinheiro e colocou no balcão. A mulher deu o troco, e ele agradeceu, montou em seu cavalo desaparecendo da mesma maneira que veio, deixando apenas como rastro a poeira que aos poucos foi se dissipando. O bodegueiro, depois de certificar que o Agnelo tinha ido embora, entra na bodega, e diz, de peito inchado, todo senhor de si, para a mulher: - Vamos beber um vinho, dos bons, um português! - Mas por quê? Pergunta a mulher. - Para você se acalmar do susto que passou. - Toma o vinho você, seu cagão! Disse a mulher furiosa, e completou, limpando dos farelos o balcão, e ajeitando o cabelo que teimava em cair na testa. - Quem é que fugiu daqui? Fui eu? E como sempre, muito fanfarrão ele disse: - Se este bandido aparecer outra vez aqui eu... e a mulher, mais furiosa ainda, não permitiu que ele terminasse a frase dizendo: - Vá limpar antes as merdas de sua cueca, seu cagão! POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 9 de março de 2014

UM CAVALO URINOL

Segundo estudiosos, e conforme o senso comum, preguiçoso é aquela pessoa avessa às atividades que lhe exijam esforço físico ou mental. Ela quer se mexer pouco e pensar... nem pensar. O preguiçoso muitas vezes acaba pagando o mico pela sua indolência, ou então arrumando uma boa desculpa para fugir da troça. E foi o que aconteceu. Seu Peterson, – nome fictício – lá pelos idos do início do século passado, vivia na pequena localidade chamada de Antônio Olinto. Ele era autoridade na cidade, um rábula muito conhecido e respeitado pela sua prática com as leis. O que seu Peterson fazia ou dizia era sagrado, e se tornava muitas vezes ato corriqueiro na cidade. Naquela época, carro era artigo de luxo apenas visto nas revistas; na cidade tão somente carroças, os equinos e muares para a logística de transporte de cargas e pessoas. Seu Peter tinha um vistoso cavalo lusitano, e com ele fazia, faminto, taradão, as rondas pela cidade atrás de rabos de saia. Pelo modelo de transporte e pelo seu porte físico era o galã na região. Quando retornava de suas andanças sempre trazia novidades, e por essa razão era cercado, mesmo antes de apear, para relatar os acontecidos. Era, por assim dizer, um repórter fofoqueiro ambulante. Um dia, após um desses misteriosos passeios em busca do nada ou de muitas coisas, seu Peter voltava para casa no lombo de seu cavalo. O trotear lerdo pelo poeirento caminho quebrava o silêncio do entardecer. O tempo se vestia rapidamente de negro, e nuvens escuras anunciava chuva. - Estas nuvens aliadas a dor de meu joelho com certeza vai chover! Matutava alto seu Peter. - O que você acha meu cavalo? Perguntou ele batendo no dorso do animal. O animal se vira, relincha e muito mais preocupado com estrada responde. - Não chove não, seu Peter. O trotear, agora mais acelerado, engolia a estrada, mas o caminho ainda era longo. A cerveja que ele bebeu na última bodega começou a pressionar a bexiga. - Que merda! eu vou ter que apear para urinar! Um pouco contrariado pensou alto o cavalgante. - Já que vai chover, vou urinar aqui no cavalo e ninguém ira saber! A chuva irá lavar tudo! Pensou novamente alto o cavaleiro. - Nada disso! Reclamou o animal. Não sou penico! Pare com isso! Nada adiantou as súplicas relinchadas do pobre animal, pois seu Peter desaguaxou seu órgão mijador. A urina quente, feito uma cachoeira escorreu pelas pernas dele e pelo lombo do cavalo. O cavalo ficou puteado e disse impropérios ao seu Peter, completando. - Vá mijar na sua mãe, seu desgraçado! Tomara que não chova só para que este filho de uma puta pague o mico! Dito, praguejado e feito; Não choveu. - Puta que os pariu! Que merda de tempo! Não vai chover! Gritou desconsolado, apavorado seu Peter. A cidade rapidamente chegava ao final da estrada, e lá estava o povo reunido ansioso por novidades. E que novidades! - O que é isso seu Peter, suas calças e o cavalo todo molhado?! Seu Peter pensou, pensou e respondeu. - Para fugir da chuva galopamos rapidamente, e ao passar por uma poça d’água ela nos molhou por baixo. E o povo simplesmente acreditou, mas o cavalo enlouquecido, em discordância total, corcoveou, peidou relinchando feito um espiritado. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O PÉ DE BOSTA

Meu amigo Cícero é um cara por deveras prevenido, cuidadoso, mas às vezes desatencioso. É um nordestino contador de muitas histórias. Fico, muitas vezes, ouvindo-as sem parar. Ele é despachado, não tem o que muita gente chama de cu assustado. Estando com o intestino cheio, e as merdas pedindo licença para passar, qualquer lugar é apropriado para que ele as elimine. Sempre trás com ele um rolo de papel higiênico. É um cagão por excelência. Um dia foi picado por uma surucucu furiosa. Ela se contorcendo toda morreu, mas meu amigo ficou apenas com dormências nas pernas e com pouca sensibilidade nos pés. Pela conformação de seu esqueleto arquitetado em Caicó, foi sentenciado por uma junta médica de Cambará que ele não pode, em hipótese alguma, comer seriguela com carne de jumento porque seu organismo entra em convulsão alucinante. Contou-me, certa feita, uma engraçada história que resolvi traduzir de meu jeito. Um dia meu amigo Cícero foi convidado para uma festa de casamento. Vestiu a caráter, chapéu de couro e chinelão, e foi à festa. Antes da cerimônia a comilança começou. Comeu gulosamente muita carne, e logo em seguida se atracou com bolos, doces de todos os formatos e sabores e por fim, lambendo os dedos, perguntou ao noivo: - Que carne apetitosa! De que bicho é? E estes doces e bolos saborosos, do que são eles feitos? O noivo olhou para o Cícero, colocou sem cerimônia a mão no ombro dele para se equilibrar, e olhando, com aquele olhar meia vida, de puta velha envenenada, e com a voz entorpecida pelo álcool solenemente, com a língua travada falou. - Cícero, minha noiva está grávida, e ela desejou ardentemente que tudo fosse feito com carne de jumento e com seriguela. E completou: - Para que a criança não nasça com cara de jumento e olhos de seriguela, tudo o que você vê e comeu nessa festa é jumento puro e seriguela da melhor qualidade. O Cícero vesgou, rodopiou e caiu aos peidos estrepitosamente ao chão. Pouco depois, abriu os olhos, passou a mão na bunda e percebendo que a coisa ainda não havia acontecido, saiu rapidamente da festa, e arriando as calças, soltou a descarga intestinal por detrás da primeira moita de flores que encontrou. Voltou satisfeito para festa, mas permaneceu perto da porta para qualquer emergência cagatória futura. Nesse momento o Padre oficiava a cerimônia. Um terrível fedor de carniça começou a tomar conta do ambiente carregada pela brisa que perpassava por onde o Cícero estava. As pessoas enojadas começaram a se afastar dele. - Será que o vento está trazendo o perfume de merda aqui para dentro? Perguntou cismado o Cícero para ele mesmo. E a catinga foi aumentando, foi aumentando assustadoramente. E a multidão, de narinas tapadas gritava: - Cagaram no mundo! Salve-se quem puder! - Voltem! Voltem! O noivo desesperado gritava. A festa ainda não acabou! Volte minha gente! Volte! E o povo asfixiado debatendo-se fugia, tal era o fedor da carniça que ali reinava. Mas de repente... A noiva, quase intoxicada pelo fedor, contorcendo-se quase morta, grita furiosa para o noivo apontando os pés do meu amigo Cícero. - Olha! Olha! Teu amigo é o culpado, o filho de uma puta pisou na bosta, e está todo embostelado. O Cícero ao olhar para os seus pés não contestou o filho de uma puta. Viu encabulado a cagada que fez. Lá fora, atrás da moita, ao ficar de cócoras a fim de esvaziar o intestino, depositou a merda toda no chinelão, e não sentindo a meleca, trouxe a carniça toda para dentro do recinto. Até hoje, lá pelas redondezas onde mora é conhecido como o pé de bosta. POR MARIO DOS SANTOS LIMA